No Dia do Contador de Histórias, Nuno passou de livreiro a escritor.
Num episódio ao vivo do Palavrão — o podcast da Livraria Lello —, o autor apresenta o seu livro de estreia, “O Lugar na Terra da Rapariga Impossível”, publicado pela Livraria onde trabalha há oito anos. Com a publicação, a Livraria Lello reforça a sua aposta na edição de autores portugueses e prova que vale a pena apostar no talento da casa.
Um leitor feito livreiro. Um livreiro feito escritor.
Nuno Joanaz de Melo é um leitor feito livreiro. Um livreiro feito escritor. Um contador de histórias agora publicado pela Livraria Lello Porto. Para Nuno, faz todo o sentido lançar o seu livro no Dia do Contador de Histórias. “Quando soube que o meu livro ia ser lançado neste dia, disse que tinha de acontecer. É um dia perfeito porque o nome do narrador do livro é Storyteller. O que define esta personagem é contar histórias, e há muito de mim no Teller”, aponta. rnrn“Acredito que qualquer escritor que diga que não há um pouco de si na sua obra está a mentir. Pode estar a mentir à plateia ou a si próprio. Mas está a mentir. O que escrevemos é uma partilha do que somos. Portanto, é inevitável deixarmos um bocadinho de nós entre as duas capas”, partilha o autor no episódio ao vivo do Palavrão.
“A minha irmã foi a minha primeira leitora.”
Quando Nuno era pequeno, contava histórias aos seus primos para os entreter. Foi aí que, sem se aperceber, que começou a escrever o seu livro. “O meu instinto de contar histórias surge da vontade de arrancar o meu primo da frente da televisão. (risos) Eu tinha 12 anos, o meu primo tinha cinco, e víamos os mesmos VHS em loop. A minha irmã foi a minha primeira leitora. Há um bocadinho deles no meu livro por causa disso”, relembra. rnrnUma livraria a publicar o livro de um dos seus livreiros é um gesto inédito. A Livraria Lello abraçou a publicação do livro de estreia de Nuno, mostrando, assim, que valoriza o talento das suas equipas, e incentivando o crescimento das pessoas que todos os dias dão vida à Livraria. rnrnDepois de tantos anos de escrita, o primeiro livro de Nuno está agora com os leitores. O livro “O Lugar na Terra da Rapariga Impossível” é o primeiro livro da tetralogia idealizada pelo autor, que partilhou a história de quando decidiu pedir orientação à administradora da Livraria Lello: “A Dra. Aurora viu-me chegar aqui com 25 anos. Eu era um miúdo. Como escrevi o livro, originalmente, em inglês, traduzi o meu romance para português. Quando acabei, disse à Dra. Aurora que gostava de falar com ela. Não para lhe impingir o livro, mas porque era a pessoa mais próxima de mim que me podia dar conselhos. O que aconteceu foi que a Dra. Aurora decidiu publicar o meu livro”, recorda divertido e satisfeito.
“O Lugar na Terra da Rapariga Impossível”, um livro sobre descobrirmos o nosso lugar
Depois de ter estado extremamente envolvido na edição do seu livro — entre revisão, elaboração da capa e até ilustração, processo em que a Livraria Lello quis envolver o livreiro feito autor —, o livro é agora dos leitores: “O livro ‘O Lugar na Terra da Rapariga Impossível’ é sobre descobrirmos o nosso lugar, mesmo que a nossa vida pudesse não ser possível. Há uma jovem que sempre soube que não pertencia onde estava. E há um rapaz que lhe vai revelar um mundo novo. Um mundo maior. Um mundo onde tudo pode vir a ser possível”, revela o autor um pouco da sinopse. rnrnNuno partilha com a plateia, que encheu a Livraria Lello Porto para estar presente no lançamento do livro “O Lugar na Terra da Rapariga Impossível”, que os seus pais sempre garantiram que não faltavam livros em casa. “Havia um livro na mesa de cabeceira de cada um de nós. Não tínhamos razão de queixa. Não me lembro de os livros não fazerem parte da minha vida.” Além disso, há um momento definidor na escrita do livro: “A minha mulher, Catarina, deu-me uma prenda. Deu-me um caderno com uma mensagem: ‘Pára de falar sobre o livro e escreve.’ Nessa noite, em 2015, escrevi a primeira frase do meu livro. Peguei numa caneta, nesse caderno e escrevi: ‘Antes de mais, é melhor avisar-vos. Isto é uma história de amor e peço desculpa por isso.’”, lembra-se.
“Fiquei apaixonado pela profissão de livreiro.”
Ser livreiro revelou-se ser a profissão perfeita para Nuno Joanaz de Melo. Tudo começou quando ficou noivo, aos 25 anos. Tinha-se mudado de Setúbal para estudar Literatura, no Porto. “Não pensava encontrar trabalho antes de acabar o curso. Surgiu a oportunidade de trabalhar na Livraria Lello Porto e fiquei apaixonado pela profissão de livreiro. Apercebi-me de que me assenta que nem uma luva.” rnrnNuno vive rodeado de livros, todos os dias. Conta, no episódio ao vivo, que vê um brilho nos olhos dos visitantes da Livraria Lello, diariamente, quando levam um livro debaixo do braço, mas nem sempre é simples fazer essa ponte entre livro e leitor: “A grande missão de um livreiro é encontrar a história certa para a pessoa certa. Isso nem sempre é fácil. Nós, livreiros, somos ávidos leitores. É um desafio muito grande pôr de parte o nosso gosto para escolher o melhor livro para a pessoa que temos à nossa frente. Esse é o maior desafio de ser livreiro. Podemos ser egoístas e quer que todos gostem das histórias de que nós gostamos, mas esquecemo-nos de que ninguém é igual a nós”, partilha. rnrnAssim, os livreiros têm de tentar pôr de parte o seu gosto literário para melhor ajudar um visitante e potencial leitor: “É sublime quando encontramos uma pessoa para a qual nós somos o livreiro perfeito para elas. Não é só encontrar a história certa para a pessoa certa. Na Livraria Lello Porto, nunca há dias entediantes. Há histórias enternecedoras, como pedidos de casamento, mas também outras mais caricatas. Um dia, um visitante tirou-me uma fotografia com flash, mesmo na minha cara. Virou-se para mim e disse: ‘You look like a writer. Tens cara de escritor.’ E eu respondi: ‘Thank you. Flash is not allowed’ (risos) Isto foi há seis anos e continua a ser engraçado”, recorda, divertido.
Stoker, Wilde e Pratchet, os favoritos de Nuno
Quando chega esse momento mágico de recomendar livros, aquele que Nuno Joanaz de Melo gosta mais de sugerir é o clássico de Bram Stoker: “O “Drácula” é a minha resposta mais comum quando me perguntam qual é o meu livro favorito. Temos, por exemplo, na nossa Pop Collection e que há melhor do que levar uma história intemporal de um sítio intemporal? O ‘Drácula’ tem uma história fascinante. É sobre as várias facetas do mal, incluindo as mais sedutoras. O livro é 100% narrado pelas personagens, e quando lerem o meu livro irão perceber porque é que isso me fascina”, garante o autor. rnrnEntre os livros favoritos de Nuno Jonaz de Melo está, também, o “Retrato de Dorian Gray”. “É o único romance de Oscar Wilde. É dos meus autores favoritos. Oscar Wilde domina a língua inglesa de uma forma mágica. Tem uma temática que me é querida: horror ligado a fantasia.”
Lídia Jorge desafiou Nuno, o autor deixa homenagem
Mesmo antes de ter lugar mais um momento de ternura, em que Nuno deixa uma mensagem de apreço à escritora Lídia Jorge, adereçando um exemplar autografado do seu primeiro livro à autora que o inspirou a escrever, Nuno Joanaz de Melo partilha por que razão a Literatura Fantástica o fascina: “Os livros que me marcaram mais são os que usam a Fantasia para nos explicar algo que não sabíamos sobre nós próprios. Escrevi a minha dissertação de mestrado sobre isto. Terry Pratchet é o autor que mais me fascina. O autor pega na fantasia, na sátira e no humor para nos mostrar o nosso mundo de forma diferente. Os contadores de histórias não só nos mostram mundos mágicos, como também nos mostram o nosso mundo numa luz diferente. O Terry Pratchet ensinou-me isso. rnrnE que tem a Literatura Fantástica para nos ensinar? Nuno responde com rapidez: “Tudo. A Fantasia mostra-nos a realidade numa forma inesperada, às vezes meio ridícula ou inesperada. Não estamos à espera de ver tanta realidade num mundo tão mágico. É isso que quero fazer. Um dos meus objetivos é explorar o poder das histórias”, promete. rnrnPara fechar o episódio ao vivo, agora disponível em podcast, o autor Nuno Joanaz de Melo voltou a atuar com o Grupo de Fados Literatus, que tocaram os temas “Reminiscências de Liberdadeu0022 e u0022Baldada de Despedida de Letras de 2016u0022. A atuação está disponível no episódio do Palavrão.



